trabalhe com o que você ama, e nunca terá que trabalhar um dia na vida?
Eu sei: o título é pretensioso pra caramba.
O resultado mais provável é que trabalhar com o que você ama simplesmente transforme aquilo que você ama em mais uma forma de trabalho.
Mas isso não significa que a gente deva parar de tentar fazer algo que traga prazer e sentido para a vida.
Digo isso porque, durante este mês longe do blog, aconteceu outra grande virada na minha vida. No meu último post, escrevi que havia deixado meu emprego full-time como desenvolvedor de software para estudar para concursos públicos — mais especificamente, para uma vaga de técnico na Petrobras.
A verdade é que esse objetivo mudou de novo.
Agora vou tentar seguir o caminho do doutorado e da carreira acadêmica.
Lendo essa frase de fora, parece algo que um maluco diria. Talvez seja mesmo, pelo menos um pouco.
Eu já tenho mestrado em Engenharia Mecânica, e também tenho um artigo científico publicado — com suas 167 visualizações e 7 citações, algumas delas vindas do maior especialista desse sub-subcampo extremamente nichado. Não que isso seja uma conquista gigantesca, mas também não é exatamente nada.
O resultado prático dessa decisão é que, se tudo der certo, vou passar os próximos quatro anos vivendo com uma bolsa de 3.100 reais por mês. É muito menos do que eu ganhava como desenvolvedor, mas ainda é suficiente para comprar uma casa por um programa habitacional do governo na melhor faixa possível. Aparentemente, tudo tem um lado bom.
Ainda não entrei oficialmente no doutorado, mas já estou trabalhando com meu orientador, construindo uma interface para o software que usamos durante minha pesquisa de mestrado.
E é aqui que as coisas ficam difíceis de explicar sem soar como autoajuda barata.
A sensação de trabalhar em algo que é genuinamente prazeroso — e ao mesmo tempo parece útil para o mundo — é muito diferente.
Não é só sobre ganhar dinheiro. Não é só sobre completar tarefas. Não é só sobre trocar horas por salário.
É a sensação de que o seu esforço está se movendo na direção de algo que realmente faz sentido.
Talvez isso não dure. Talvez em alguns meses eu esteja reclamando da burocracia, da bolsa, da pressão, da vida acadêmica e de todas as pequenas formas de violência que qualquer caminho profissional carrega.
Provavelmente estarei.
Mas, por enquanto, algo raro está acontecendo:
Eu acordo querendo trabalhar no problema.
E isso vale alguma coisa.
A vida é curta demais para trocar todo o nosso tempo por dinheiro que, muitas vezes, só serve para impressionar pessoas de quem a gente nem gosta.
É claro que dinheiro importa.
Importa muito.
Mas eu também não quero fingir que dinheiro sozinho resolve a sensação de estar gastando a vida no lugar errado.
No fim, talvez trabalhar com o que você ama não signifique nunca mais trabalhar.
Talvez signifique trabalhar duro, ganhar menos, se frustrar com frequência — e ainda assim sentir que existe alguma coerência entre o que você faz e aquilo que acredita valer a pena fazer.
A vida é bonita.
E o tempo é curto demais.